Jornal do Mundo apresenta
Do nascimento à eternidade — uma memória de 18.000 anos
16.000 a.C. — Presente
Você está prestes a ler a história de alguém que não deveria mais existir.
Não porque eu seja extraordinário — ao contrário. Fui, por muito tempo, apenas um homem. Caçador. Construtor. Alguém que dormia perto do fogo e acordava sem saber se o próximo inverno seria o último.
O que me tornou diferente não foi coragem, nem sabedoria, nem nenhum dom que eu tenha pedido. Foi um encontro ao acaso com a terra — com aquilo que a terra escondia sob a folhagem molhada de uma floresta que hoje não existe mais.
Isso aconteceu há quase dezoito mil anos. Desde então, vi impérios nascerem e virarem pó. Vi línguas surgirem do silêncio e desaparecerem na boca dos últimos que as falavam.
Este livro não é sobre o que eu fiz nesses dezoito mil anos. É sobre quem eu era antes — e sobre a noite que mudou tudo.
Não me tornei imortal. Tornei-me testemunha. E testemunhar, descobri ao longo dos séculos, é uma forma de eternidade que pesa mais do que qualquer imortalidade que os mitos prometem.
— Jophra Morier16.000 a.C. — Fim da Era Glacial, região da antiga Frígia
Há 16.000 anos, a Terra emergia do Último Máximo Glacial. Geleiras recuavam, rios nasciam do degelo. Os humanos eram caçadores-coletores em bandos de 20 a 50 pessoas. A arte rupestre de Lascaux e Altamira já era prática estabelecida. A civilização ainda estava a pelo menos oito mil anos de distância.
Nasci numa caverna.
Não digo isso como metáfora. Vim ao mundo numa caverna de pedra calcária, no flanco de uma montanha que os futuros mapas chamariam de Anatólia, numa noite em que o vento soava como se a terra inteira estivesse respirando fundo antes de uma decisão.
Minha mãe tinha olhos de uma clareza incomum para a nossa gente — quase âmbar, como mel antigo — e mãos que pareciam ter sido feitas para construir coisas. Ela era uma mulher de poucas palavras e muitas ações. Aprendi isso com ela antes de aprender qualquer outra coisa.
O mundo que recebi como lar era imenso e violento e extraordinariamente belo. O gelo recuava lentamente para o norte, deixando vales cheios de água cor de chumbo e florestas que cresciam atordoadas, como se não acreditassem na própria sorte.
Desde pequeno, fui obcecado por fazer coisas. Enquanto outros meninos treinavam a mira, eu desenhava nas pedras. Havia em mim uma fome de entender o mecanismo das coisas que nunca foi embora.
Da infância à juventude — o artesão que sempre fui
Há uma coisa que aprendi muito cedo e que os séculos só confirmaram: fazer coisas com as mãos é uma forma de rezar.
Não da maneira que as religiões mais tarde ensinariam. Mas da maneira que importa: colocando a atenção inteira em algo fora de você mesmo. Quando você esculpe, quando você constrói, quando você desenha, você para de existir por um momento. Só existe o que está sendo feito.
Aprendi isso aos sete anos, trabalhando sílex com meu pai. Ele criava lâminas tão finas que você conseguia ver a luz através delas. Não me ensinou com palavras. Me ensinou me deixando observar, me deixando errar, me deixando tentar de novo.
Aos vinte e poucos anos eu era reconhecido na minha tribo como alguém que consertava coisas. Não um líder. Não um guerreiro. Um consertador — alguém que, quando algo quebrava, sabia como juntar os pedaços de volta.
Toda civilização que vi nascer e morrer ao longo desses dezoito mil anos foi erguida, no fundo, por pessoas que sabiam fazer coisas com as mãos. Os impérios são ideias. As cidades são tijolo e argamassa. E tijolo e argamassa são sempre, no fim, as mãos de alguém.
— Jophra MorierA véspera — o homem que eu era antes da noite
Aos quarenta e cinco anos, eu era um homem completo no sentido mais literal que esse tempo permitia.
Tinha atravessado as etapas que a minha época considerava uma vida bem vivida: sobrevivi à infância — que era, por si só, uma conquista. Aprendi um ofício. Fiz parte de uma comunidade. Construí coisas que durariam mais do que eu.
Fisicamente, eu estava no auge de algo. Não da juventude — essa tinha passado. Mas de uma completude que só a maturidade traz: força sem a imprudência dos vinte anos, experiência sem o cansaço que viria mais tarde.
Nunca me passou pela cabeça que esse seria o rosto que eu teria para sempre.
A expectativa de vida média na pré-história era de 30 a 35 anos — não porque as pessoas envelheciam rápido, mas porque a mortalidade infantil e os acidentes de caça eram devastadores. Quem chegava aos 45 era considerado um ancião de facto, portador de conhecimento vital para o grupo.
Naquele dia — o dia que eu não sabia que mudaria tudo — acordei cedo, com a sensação inquieta de quem tem trabalho pela frente. O céu estava cor de cobre velho quando saímos. O tipo de céu que faz você parar e olhar para cima por um momento antes de continuar.
Parei. Olhei. E depois continuei. Não tinha ideia de que em algumas horas o próprio tempo pararia de tocar em mim.
A floresta, os cogumelos, o portal
Encontrei os cogumelos por acidente.
Isso importa. Não havia ritual. Não havia intenção. Havia eu, abaixado entre a vegetação densa tentando rastrear o rastro de um bisão, e havia eles — um grupo pequeno de cogumelos crescendo na base de uma árvore caída, com aquela qualidade específica de presença que algumas coisas têm e que é difícil de descrever sem parecer louco.
Pareciam me olhar.
Eu sabia de cogumelos. Sabia quais eram coestíveis, quais eram veneno, quais causavam efeitos que minha tribo chamava de “a conversa com os espíritos”. Esses últimos eram usados pelos mais velhos em momentos específicos, com respeito e cuidado. Não eram proibidos. Eram diferentes.
Não fui eu que escolhi aquela experiência. Fui convocado por ela. Há uma distinção fundamental aí que levei séculos para entender completamente — e que a ciência, muito mais tarde, começaria a confirmar de maneiras que me fazem sorrir até hoje.
— Jophra MorierOs outros homens tinham seguido adiante. Eu estava sozinho. Comi os cogumelos devagar, com atenção, da maneira que minha mãe me ensinou a comer qualquer coisa da terra — com respeito, não com pressa.
O tempo se dobrou sobre si mesmo. Vi padrões que só reconheceria muito mais tarde — em templos egípcios, em espirais celtas, em fractais que matemáticos do século XX chamariam de geometria do universo. Meu corpo vibrou com uma frequência que não vinha de fora. Vinha de dentro. De muito dentro.
E então, como toda experiência real, terminou. O sol estava se pondo. A floresta cheirava a terra molhada. Levantei. Voltei para o acampamento. Não sabia ainda. Levaria algumas semanas para perceber que o tempo havia parado de tocar no meu corpo.
Semanas depois — quando o corpo conta a verdade
A primeira coisa que percebi foi o olhar das crianças.
Crianças não mentem com os olhos. As crianças da minha tribo — que me conheciam desde que nasceram, que sabiam meu rosto de cor — começaram a me olhar de um jeito diferente. Não com medo. Com uma espécie de curiosidade perplexa. Como se eu tivesse ficado igual a ontem, mas eles tivessem crescido um pouco durante a noite.
Depois vieram os reflexos d’água. E o que eu via era o mesmo rosto de antes. Enquanto os homens ao meu lado ganhavam as marcas que os anos colocam, o meu rosto ficava parado. Exatamente como estava.
A psilocibina, princípio ativo dos cogumelos Psilocybe cubensis, é estudada em pesquisas clínicas por sua capacidade de promover neuroplasticidade e alterações epigenéticas — modificações na expressão dos genes sem alterar o DNA. A “Teoria do Macaco Chapado” de Terence McKenna propõe que o contato ancestral com cogumelos psilocibinos pode ter acelerado o desenvolvimento da consciência humana.
Não me tornei imortal. Podia morrer — por ferida, por doença, por descuido. O que havia mudado era outra coisa: o processo pelo qual o tempo normalmente trabalha o corpo havia sido interrompido. Meus ossos não seguiriam envelhecendo. Minha pele não cederia.
A primeira emoção não foi alegria. Foi uma solidão enorme e súbita. Porque entendi, sem que ninguém precisasse me dizer, o que aquilo significava. Todos que eu amava iriam envelhecer. E eu não.
A eternidade, descobri naquele momento, não é um presente. É uma responsabilidade. E como toda responsabilidade real, só se entende quando já não tem como devolver.
— Jophra MorierAprender a existir além do tempo humano
Os primeiros cem anos foram os mais difíceis.
Não por razões práticas — sobreviver eu sabia como. Foram difíceis porque é nos primeiros cem anos que você ainda carrega a ilusão de que vai acordar um dia e tudo vai ter voltado ao normal. Que o espelho vai mostrar um rosto envelhecido. Que você vai fazer parte do fluxo das coisas como todo mundo.
Não volta.
Aprendi a me mover. Nunca fiquei num mesmo lugar por tempo suficiente para que as perguntas virassem problemas. Cada civilização que atravessei me deixou algo. Os egípcios me ensinaram que a grandeza tem um custo humano que os monumentos não contam. Os gregos me ensinaram que a beleza de uma ideia não garante a bondade de quem a tem.
Estive em Atenas quando Sócrates foi condenado. Estive em Roma quando Júlio César foi assassinado no Senado. Estive em Florença quando Leonardo desenhava máquinas que o mundo levaria séculos para construir. Não como personagem central — como observador. E a vantagem do observador é que ele não tem nada a perder na narrativa dos outros.
— Jophra MorierEm cada lugar, em cada época, levei comigo o mesmo rosto. As mesmas mãos. O mesmo corpo de quarenta e cinco anos que o tempo deixou para trás como se tivesse esquecido de mim.
E em cada lugar, cedo ou tarde, alguém perguntava quem eu era de verdade. Nunca menti. Nunca disse a verdade completa. Encontrei um meio-termo que é a moeda de troca de quem vive além do tempo dos outros.
Funcionou por dezoito mil anos. Está funcionando ainda.
Epílogo — O Presente
Estou no Brasil enquanto escrevo isso. Cheguei aqui há alguns séculos — com os navegadores portugueses — e algo neste lugar me fez ficar mais do que o habitual. Talvez a mistura. Talvez a luminosidade específica do fim de tarde no interior.
Uso as redes digitais agora — é a primeira tecnologia em toda a minha existência que permite a um único ser alcançar simultaneamente pessoas em todo o mundo. Não desperdiço isso.
Há uma coisa, porém, que ainda não contei. Sobre aquela noite na floresta. Sobre o que a ciência finalmente começou a entender sobre a psilocibina, sobre neuroplasticidade, sobre consciência expandida. Essa é a história que ainda precisa ser contada. E a contei no único lugar onde ela cabe inteira.
O e-book âncora — narrado por quem viveu a experiência em 16.000 a.C.
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